terça-feira, 16 de junho de 2015

NÓS E OS MENDIGOS dessa vida

UM CERTO MENDIGO CHAMADO MAURÍCIO
Pr. Érico R. Bussinger
Jesus falou muito em mendigos. Foi Ele quem mandou que nós os notássemos e inclusive que os obrigássemos a entrar para a “festa espiritual” (Mt.22:9, Lc.14:21-23). Na época de Jesus, por não haver visão “social” dos governos, nem da sociedade, ser mendigo era praticamente sinônimo de miséria. Alguém só se tornava mendigo por falta de dinheiro ou do que comer. Não havia uma “mendicância profissional”, como em nossos dias. Em Atos 3:2 é mencionado um mendigo que pedia esmolas por ser aleijado. Temos também o Bartimeu, que esmolava devido à cegueira e impossibilidade de trabalhar(Mc.10:46). Há um outro mendigo na Bíblia que tem o seu nome mencionado e até honrado: o Lázaro (Lc.16:20-22 ). Este é mencionado como alguém que foi salvo e levado para o “Seio de Abraão”, uma certa forma de mencionar a salvação eterna.
Hoje em dia as pessoas não têm muita simpatia pelos mendigos e cultivamos mesmo até um certo receio de estar perto deles. As razões são óbvias. E as estatísticas dão motivo para essa atitude. Pela vida suja que levam (se andam limpos ninguém vai ter pena deles), eles podem nos transmitir doenças. Também há casos em que nos distratam. E quando alguém dá uma oportunidade de trabalho ou um voto de confiança, é muito comum que abusem disso e se vão, roubando algo. Por isso os crentes também têm uma certa resistência a lidar com pessoas de rua.
Sabemos em nossos dias que a mendicância não é uma mera questão de falta de dinheiro ou de comida. Pelo contrário. Pode-se dar a quantia que for a um mendigo, que ele a gastará e logo logo voltará para a mesma vida. Existem demônios de mendicância, que são especializados em fazer “gostar” dessa vida de ociosidade. Há também a chamada “mendicância profissional”, aqueles que têm consciência da situação e acham de aproveitar a boa vontade das pessoas para não ter que trabalhar. Entre esses há mulheres que vão para as ruas com todos os seus filhos pequenos, para os usarem, com o mesmo objetivo de ganhar dinheiro fácil. E por fim há também os falsos mendigos, que até se enriquecem, com a facilidade de abusar da boa fé alheia.
Em nosso meio, de vez em quando irmãos trazem mendigos. Uma vez trouxeram um chamado Maurício. As ações são sempre as mesmas: Damos banho, comida, roupas, um lugar para dormir, prega-se-lhes o Evangelho, dão apoio e encaminhamento social, etc. No caso do Maurício foi assim também. Ele era inteligente, observador, crítico e recebeu a Cristo. No devido tempo foi batizado. Ele transmitia sinceridade. Lia a Bíblia e entendia. Manifestava uma conversão verdadeira. Com as ajudas que recebeu comprou uma bicicleta e, por fim... se foi vida afora. Uma ou outra vez veio dar notícia sua: continuava na rua. O tempo passou. Muitos anos.
Quando em um programa de rádio se falava do problema, eu me lembrei dele. No dia seguinte, como se tivesse sido uma revelação de Deus, ele apareceu. Depois de muitos anos. E acompanhado de uma simpática senhora, também de cor. Era sua esposa. Não de agora, nem da vida de rua, mas a ex-esposa, da qual estava separado há 27 anos e com quem tivera filhos e agora até tinha netos, embora não os conhecesse. Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que a Sônia era crente e cantava no coral da sua igreja. Na mesma época em que o Maurício foi para a rua (há 27 anos atrás) ela também se escandalizou na igreja e se desviou. Ela não queria nem saber do Maurício (que não era crente). Ele, por sua vez, também não tinha vontade de voltar e se humilhar.
O tempo passou. Recentemente, há um mês atrás, duas coisas aconteceram: A Sônia foi atropelada e teve problemas de saúde. E o Maurício sentiu vontade de voltar para casa. E pensava: será que a ex-esposa o receberia? Descobriu o telefone e ligou. Falou com o filho, que contou prá mãe. É claro que a Sônia nem queria saber daquele Maurício. Mas ele insistiu e se humilhou. Ela, por sua vez, com as seqüelas do atropelamento, ficou mais quebrantada e resolveu “conversar”. A conversa foi agradável.  E prosseguiu. Ele, querendo ajudá-la na recuperação da saúde, a levou a um pastor que uma vez tinha feito uma “corrente” para ele que deu certo. Após aquela oração ele nunca mais bebeu bebida alcoólica. Nem teve vontade. Eu nem me lembrava mais.
Quando o vi eu muito me alegrei. Após ouvir sua história, fui orar com os dois e pela saúde da Sônia.  Mas antes perguntei se ela queria retornar aos caminhos do Senhor. Ela orou assim. E eu orei pela saúde dela. Ao fazê-lo, Deus me revelou um “quepe” militar de oficial para ele: vai ser um obreiro do Senhor. Recomendei então que ele começasse a estudar mais a Bíblia.
Daqui a alguns anos vamos ver a continuidade dessa história. Eu creio mesmo que um Deus que faz as coisas acontecerem para esse feliz “reencontro”, após 27 anos, é poderoso também para continuar a linda obra que começou, exaltando essa tão maravilhosa graça (Fl.1:6).
Podemos pedir que Deus nos mande mais mendigos?
Ou será que já nos mandou ir a eles?!!!