quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Quando o CRENTE se faz de (coitadinho)

COITADINHO DO BARUQUE
Pr. Érico R. Bussinger
Há uma atitude muito comum na natureza humana que pode ser intitulada “o espírito de coitadinho”. A auto-comiseração, ou o sentir pena de si mesmo ou ainda o se ver a si próprio como vítima é muito comum a qualquer pessoa, qualquer família ou grupo de pessoas. Nas igrejas, então, esse espírito está sempre presente. O que vem a ser isto?
A rigor, quando uma pessoa se faz passar por vítima, ela precisa de “platéia”.Ela não sofre solitariamente. Isso seria outra coisa, como complexo ou opressão, algo espiritual e externo que é imposto sobre a pessoa. Mas a auto-comiseração é como um teatro. Em geral é a própria família que tem que sofrer a “apresentação”. A pessoa procura demonstrar de todas as maneiras possíveis, como choro, semblante triste, contrariedade, rebeldia, gritos ou mesmo descontrole emocional, que ela não está satisfeita. E faz questão de demonstrar para os outros que ela está sendo vítima. Segundo ela seriam quaisquer outros os responsáveis por fazê-la sofrer imerecidamente. Ela está sendo injustiçada. Não está recebendo o reconhecimento que merece. Na igreja, não está tendo oportunidades ou mesmo o seu trabalho não está recebendo reconhecimento.
Ao manifestar auto-comiseração a pessoa não está pedindo que as pessoas lhe façam justiça. Ela não quer que mude a situação. Ela quer continuar a se passar por vítima, chamando a atenção dos outros para si. É como uma criança fazendo “manha”. Vai para um canto, faz cara de choro, não quer conversa com ninguém, mas quer que as pessoas olhem para ela.
Em termos práticos, quando alguém age assim na igreja, está sendo um transtorno para a continuidade da obra de Deus. Ao invés de os outros trabalharem e se ocuparem de suas tarefas, eles vão desviar a sua atenção para o “coitadinho”. O prejuízo para o grupo é sempre grande, quando há uma “coitadinha” no seu meio.
Aos meus olhos, existe uma casta de demônios especializada neste assunto. Seu objetivo é claro: atrapalhar a obra de Deus e, se possível, causar um escândalo e retirar alguém dali.
Nós encontramos exemplos na Bíblia desse tipo de atitude. Muitas aconteceram durante o “mutirão” de Neemias, que precisava do engajamento exatamente de todos os judeus. Mas o caso bíblico, para mim mais interessante, foi o de Baruque, amigo e seguidor do profeta Jeremias. Ele funcionava como uma espécie de secretário ou ajudante do profeta. Para facilitar o relato das profecias, o profeta ia recebendo as inspirações (profecia é isto) e o Baruque ia escrevendo (Jer.36:15-18). Ele foi sempre fiel ao profeta, até o fim, no Egito (Jer.43:6,7). Aos nossos olhos o Baruque foi o companheiro quase perfeito que Jeremias precisava. Mas Deus o via com outros olhos.
Quando ainda havia rei em Judá e pela dureza das profecias de Deus, Baruque suspirou com o espírito de auto-comiseração e desabafou sua situação (Jer.45:3). Seria mais um caso comum de desabafo humano por se sentir vítima das circunstâncias, não fora Deus aproveitar para “revelar” o que há por trás dessa manifestação (v.4 e 5), servindo de lição para os demais. Segundo Deus, o que há no interior de alguém que se faz de vítima é pura vaidade, ou desejo não realizado de grandeza. E o pior é que muitas vezes essa manifestação ocorre na contra-mão do que Deus faz. No caso, a profecia de Deus era para destruição. E o Baruque desejava “aproveitar” a situação, já que ele desempenhava a importante função de porta-voz e secretário do profeta de Deus. Ou seja, ele se sentia muito importante pelo fato de estar sendo “usado” por Deus. E queria recompensa por isso. É como líderes que querem se aproveitar da igreja, ainda que as pessoas sejam pobres e as circunstâncias difíceis. Deus foi muito claro para com o Baruque: Não é hora de procurar grandeza, riquezas nem fama (Jer.45:5). Além de tudo, cultivar a atitude de auto-comiseração é fazer pouco caso das consolações de Deus e desprezar o Seu trato para conosco, como filhos Seus.
Em vista das palavras proféticas de Deus, também para os dias atuais, entendemos que é tempo de os líderes, que conhecem a situação, “colocarem a boca no pó” (Lm.3:29), “rasgarem seu coração, tocarem a trombeta, promulgarem jejum e chorarem perante o Senhor” (Jl.2:12-17). E não de buscar fama e grandeza.
Pelo jeito, a lição não foi aprendida pelo Baruque. Após a morte de Jeremias, ele continuou a buscar posição de importância. E escreveu um livro que os judeus e os evangélicos não reconhecem como “inspirado”.
Em resumo, Deus revelou o que há no interior dos que se “sentem vítimas”, os “coitadinhos”: nada mais que vaidade. Aliás, o que Salomão também verificou.
Portanto, recomendamos: não se faça de coitadinha. Você não é vítima. Os filhos de Deus O honram com sua atitude. E definitivamente, se sentir “coitadinho”, como o Baruque, é atitude que não honra a Deus.