sexta-feira, 3 de setembro de 2021

FILTRAR OS PREGADORES NA IGREJA

 

                 A  PREGAÇÃO  NÃO  É  FALAÇÃO  

                                                         Pr.  Érico  Rodolpho  Bussinger

              Se quase todas as coisas no mundo estão evoluindo, será que o papel da pregação também não vai ser reduzido e em algumas situações até mesmo considerado desnecessário?  Na área da Educação, por exemplo, muita coisa tem evoluído.  As aulas expositivas, como método, têm dado lugar a outros tipos de ensinos, como o áudio-visual (TV), o uso de livros interativos, para ser usados pelo próprio aluno, etc.  Em nosso tempo os filmes têm em muitas situações superado os respectivos livros;  o conhecimento pela INTERNET (Google,p.ex.) tem dispensado o uso de dicionários, enciclopédias e outras formas de consultas/pesquisas.  Será que na Igreja o papel das reuniões de culto, com falações, também não estará vislumbrando o seu fim?  É fato que muitas igrejas têm usado mais intensivamente a TV e a INTERNET para desenvolver sua comunicação.  Mas basicamente o método nas igrejas continua sendo o de “falação”, ou seja, apesar de o auditório poder ser imenso, todos estão voltados para a frente, onde uma pessoa está falando ou cantando.  Alternativamente, na música, pode ser um conjunto, um coral, etc. Mas basicamente os auditórios são sempre voltados para frente (púlpito, altar?).

          Também é fato que nos países da Europa e da América do Norte o sistema de cultos evangélicos está perdendo espaço entre a população, que cada vez mais se ausenta dos templos. É comum em países tais, que a percentagem de fiéis que freqüentam os templos seja da ordem de 1 a 2% deles apenas.   O ser humano moderno, habitante desses países considerados mais avançados, não mais considera como importante o freqüentar uma reunião de culto, onde vai ouvir o que já sabe, que lhe parecerá irrelevante (abobrinha?), quando no mesmo tempo, em casa, ele poderia na INTERNET alcançar muito mais conhecimento.  E  vai se desinteressando pela religião.  Esse aspecto é ainda agravado pelo processo de massificação das igrejas.  Cada vez maiores em número de pessoas, os assistentes de reuniões estão cada vez mais se sentindo sozinhos, embora em meio a uma multidão de outros crentes.

          Como evolução do método de pregação, as igrejas estão evoluindo para o método de shows, tentando motivar melhor os assistentes.  O coral não pode ficar na galeria lá atrás. Tem que estar de frente para o auditório.  O conjunto, banda ou cantores idem.  O povo tem que ver o que eles estão fazendo, não só ouvi-los (o cântico é para Deus ou para o auditório?).  Os pregadores têm que se vestir bem, gesticular bastante e ilustrar a apresentação do seu sermão, a fim de agradar ao povo.  Eles têm que usar a argumentação e a duração do sermão seguindo técnicas aprendidas, visando dinamizar a sua pregação-show.  Os pregadores que conseguem esses resultados  realmente passam a valer muito no mercado religioso, tornando-se famosos e dignos até de programas de TV.

          E Deus, onde se encaixa nesse verdadeiro circo religioso, onde o culto é substituído por show, onde a exposição da Bíblia dá lugar a elaboradas preleções e os resultados são medidos pelo sucesso junto ao povo?

          Eu creio piamente que precisamos nos reportar aos princípios, inclusive questionando tudo que recebemos a respeito de tradição religiosa de cultos.

          A Bíblia nos diz que Jesus ensinava, porque tinha autoridade para isso (Mt.7:29). Seus métodos de ensino eram bem diferentes de uma “pregação” nos templos atuais.  A começar que Ele não pregava em templos.  Quando Jesus cumpriu sua missão e voltou para o Pai, Ele nos deixou uma ordem maior: “IDE POR TODO O MUNDO E PREGAI  O EVANGELHO A TODA CRIATURA” (Mc.16:15).  É ponto de concordância unânime que essa ordem é para todos os cristãos.  A essência dessa ordem é o “KERIGMA”, palavra grega que significa a proclamação.  É o anunciar as boas novas do Evangelho para todas as pessoas.  De qualquer maneira (Fl.1:15,18; 2Tm.4:2), com qualquer método e para todas as pessoas (as que querem e as que não querem ouvir). É para todos.  O “Kerigma” visa despertar a FÉ.  Entendemos que a FÉ é um dom de Deus (Ef.2:8,9). Esse dom é dado, a FÉ vem, quando a pessoa ouve o “Kerigma” (Rm.10:17).  Antes ela não poderia crer, mas após o ouvir, ela terá FÉ e então poderá crer (ou não).  O conteúdo do Evangelho que será proclamado é o significado da morte de Jesus e a necessária decisão pessoal da pessoa.  Essa proclamação é para todos os crentes e não precisa ser na forma de uma “pregação”, muito menos em um templo (não é nos templos que se deve evangelizar, é “lá fora”).

          A segunda parte da ordem de Jesus é o ensino, o “DIDACHÊ”.  Ele disse: “IDE, FAZEI DISCÍPULOS DE TODAS AS NAÇÕES...”(Mt.28:18-20).  Para se fazer um discípulo, entre outras coisas, tem-se que ensiná-lo.  Não se ensina a qualquer um, mas somente aos que creram (e que reconhecem a nossa autoridade).  Não podemos ensinar a quem não quer aprender.  Também não podemos ensinar a quem não reconhece a nossa autoridade. Aqui reside o papel da pregação “na igreja”.  Pregação não é para qualquer um, é só para pregadores, que receberam esse dom e chamado do Senhor.  Mas eles precisam também da autoridade espiritual para fazê-lo.  A idéia embutida nessa função é que os crentes se reúnem (por exemplo, nos templos) para dar culto a Deus, o que também é uma ordem do Senhor (Sl.95:6, Sl.117:1) e para serem ensinados (pelo pastor que recebeu autoridade de Deus para isso, não por qualquer um).  O culto não é show.  Os crentes se reúnem para ser ensinados (não evangelizados). Têm que aprender. Têm que crescer.  Têm que praticar.  E têm que ser cobrados.  E deve haver uma pessoa com autoridade de Deus para isso.  No caso o seu pastor.

          Em nossos dias tem havido muitas distorções no sistema de culto nas igrejas.  Para começar, em muitas igrejas não são cultos a Deus, mas apenas reuniões com finalidades diversas.  As pregações são meramente falações.  Quem prega em geral não tem a autoridade de Deus para exigir e cobrar.  Em muitos casos o objetivo é só agradar ao público, não o fazer os crentes crescerem espiritualmente.  E em muitas situações nem são crentes, mas apenas assistentes.  Como darão culto assim?  Como aprenderão de quem não tem autoridade espiritual?  Como praticarão o que nem sabem de que fonte aprenderam?  O que esperar então de igrejas com crentes (ou assistentes) assim?

          Eu creio que é tempo de questionarmos muitas coisas da nossa herança religiosa.  Entre elas devemos com muito carinho questionarmos as pregações (ou falações) na igreja.  Deus nos ajude a isto.  Paz!

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