quarta-feira, 5 de abril de 2017

DISCIPULADO é um tipo de RELACIONAMENTO

UMA INTRODUÇÃO AO DISCIPULADO CRISTÃO
Pr. Érico Rodolpho Bussinger
            Há uma palavra nas escrituras que nos deixa maravilhados. É o capítulo 25 de 1º Crônicas. O versículo 6 resume a beleza daquele quadro, quando afirma que todos os músicos e cantores estavam sob a direção respectiva de seus pais, Asafe, Hemã e Jedutum, e estes sob as ordens do rei Davi. Que segredo havia naquelas famílias, para conseguir aquela submissão espontânea, pois que da qual se exigia harmonia e dedicação? E não há dúvida de que todos estavam em comunhão íntima com Deus, a ponto de profetizarem com harpas (v.3), terem visões espirituais (v.5), estarem aprovados, e serem constituídos alvos de promessas especiais de Deus. O grau de harmonia entre aquele grupo era tão grande, que se consideravam iguais entre si, a ponto de se submeterem todos a um sorteio comum que lhes designaria os deveres (v. 8), independentemente de hierarquia ou privilégios especiais.
     A explicação para esse tão tocante exemplo está no v. 8, o tipo de relacionamento que cultivavam – O DISCIPULADO. Mestre e discípulo eram iguais nos deveres, mas respeitosos na submissão (v.6).
     O DISCIPULADO é, pois, um tipo de relacionamento que gera uma submissão espiritual desejável. Davi era o chefe daquele grupo que se compunha de 286 músicos, certamente não por ser rei, mas pelas suas qualidades. A submissão do discípulo ao seu mestre não se dá numa base formal, antes, porém, se baseia na autoridade espiritual do mestre, e no reconhecimento dessa autoridade por parte do discípulo.   
     A ligação mestre e discípulo se baseia na diferença de espiritualidade entre um e outro, e onde há um compromisso de aliança entre ambos.
     A vida e o ministério de Jesus sobre a terra foram um exemplo insofismável do discipulado, bem como o método de trabalho do apóstolo Paulo. Em seu livro intitulado em Português “O PLANO MESTRE DE EVANGELISMO”, Robert E. Coleman analisa com extrema felicidade o ministério terreno do Senhor, e estabelece os 8 princípios do discipulado cristão, o que deveria merecer a atenção de todo cristão sério, bem como de todo líder evangélico.
     Ao partir, o Senhor deixou-nos a ordem clara: “ Ide por todo o mundo e fazei discípulos...” O IDE é inseparável do FAZER DISCÍPULOS. É impossível fazer discípulos somente esperando por eles, como é inútil ir pregar sem uma condição mínima para consolidar os resultados alcançados. Seria como que semear apenas à beira do caminho, esperando que Satanás não roube a semente lançada. Ou como continuar pescando em alto mar com o barco a pique.
     O fazer discípulos é, pois, em primeiro lugar, a ordem máxima do cristianismo.
     Ocorre, porém, em nossos dias, uma confusão perigosa entre o IDE  e o VINDE. Parece que a tendência geral entre os cristãos mais sinceros é de enviar obreiros para pregar aos incrédulos, para depois trazê-los (para a sua Igreja). A atitude atual parece ser, pois: “ide e depois vinde”; como se não se cresse no poder do Senhor, para dizer: “ide, ficai, crescei, multiplicai-vos.”
     Novamente em Israel encontramos esclarecimentos adicionais sobre esse assunto. Foi o próprio Senhor quem ordenou aos filhos de Israel que viessem todos ao templo três vezes por ano (Êxodo 34.23). Quando, porém os israelitas se acampavam, cada um deveria fazê-lo, não no lugar que achasse melhor, mas sob o seu respectivo estandarte, e todos ao redor da tenda da congregação. Cada tribo (cada grupo) com seu príncipe, segundo sua família, a casa de seu pai (Nm 2.2). Isso era necessário para que houvesse ordem entre todo aquele grande povo. O discipulado tem como uma de suas finalidades o arregimentar um grande número de pessoas, guardando uma necessária unidade de ação. Este ideal é praticamente impossível       de ser alcançado com um governo frouxo e destituído de discipulado. Os príncipes de cada tribo desempenhavam um papel muito importante no governo civil em Israel, mas não no culto a Deus. Cada príncipe era o filho mais velho do príncipe anterior, e sendo assim, em questão de ordem, todos da tribo lhe deviam obediência.
     Em Números 10 se estabelece a instituição das trombetas, que deveriam ser tocadas pelos sacerdotes. Elas eram o meio de comunicação rápida entre os líderes e o seu povo, fator de arregimentação. Os toques das trombetas se dirigiam ora só aos príncipes (v. 4), ora a toda a congregação (v.3). Tocavam na guerra (v.9) e nas festas (v.10). Ao tocarem, todos os discípulos deveriam dirigir-se aos respectivos “mestres” ou chefes. E assim todo o povo atenderia a uma só ordem. Que maravilha!    Ficamos admirados.
     Nas passagens acima percebemos claramente duas tendências: a centralização e a descentralização. A organização da Igreja inclui esses dois movimentos distintos, reconhecidos em suas respectivas áreas. O governo eficiente e participativo exige a descentralização. E para tanto, nada melhor do que o discipulado, para se garantir a unidade de um corpo que cresce. Mas o culto a Deus e a unidade de ação dependem fundamentalmente da centralização de decisões e de orientação. Da mesma maneira, nada melhor do que o discipulado, que é a única forma possível de garantir a obediência às ordens divinas, havendo a necessária descentralização, para o governo eficiente.
     Podemos, portanto, afirmar que a vontade de Deus na Igreja é a centralização para o culto, e a descentralização no governo e na ação.

O QUE É DISCIPULADO

     Para Moisés, o conselho do sogro, de escolher anciãos que com ele dividissem a responsabilidade sobre o povo (Êxodo 18. 21-26) teve o respaldo divino (Números 11.16), de forma que entendemos ser a delegação de responsabilidades bem vista aos olhos de Deus. O próprio governo do Rei Jesus adotará esse tipo de organização, quando uns receberão autoridade sobre 5 cidades, outros sobre 10 e assim por diante (Lc 19. 17-19). Quanto a Israel, a organização do povo era bem clara (Dt 1. 13-15). Havia chefes de 1000, de 100, de 50, e de 10. Os príncipes de cada tribo eram os chefes de seus milhares. Não há dúvida de que o chefe de 50 tinha autoridade sobre 5 chefes de 10, em geral de sua família. Dessa forma as ordens de Deus aos líderes eram facilmente cumpridas por todos. Essa organização era bem tipicamente militar. Presumia a hierarquia e a disciplina. Qualquer rebelião aos chefes de família era ensejo de aplicação da lei marcial (a morte). Assim, os chefes eram obedecidos rigorosamente. E nada menos que isso poderia ser tolerado na intenção de manter firme a unidade de comando em todo o Israel. O próprio Deus aprovava essa organização militar e era chamado muitas vezes de “Senhor dos Exércitos”.
     O discipulado, como opção de organização se opõe à democracia, na qual todos têm, perante a lei, igual direito de opinar sobre as decisões gerais. No discipulado as ordens vêm de cima. Na democracia as determinações provêm da maioria. Quem quiser, no sistema democrático, ter autoridade, deve fazer suas idéias conhecidas e influenciar o povo a apoiá-las, e com base nesse apoio recebido, tomar as deliberações cabíveis. Coré , Datã e Abirão não se conformaram com o sistema de governo e quiseram mudá-lo, via método democrático (Nm. 16). Arregimentaram o povo que com eles concordava e partiram para a ação. O resultado que colheram foi o juízo de Deus e a morte.
     No discipulado parte-se do princípio de que as ordens vêm de Deus, através dos presbíteros (líderes), que são constituídos em autoridade máxima na localidade. Cada um deles repassa a orientação aos discípulos sob sua influência, e assim por diante, até que todo o povo tome conhecimento e obedeça às ordens recebidas. Não há lugar para discutir a validade das ordens. É possível discutir-se a forma de sua melhor aplicação, mas nunca a conveniência de seu cumprimento. À semelhança de Coré, Datã e Abirão, seria isso uma afronta a Deus e aos seus ungidos.
     A diferença básica entre o regime militar ou a organização israelita, e o discipulado cristão, é que, naqueles sistemas, os chefes são designados, nomeados ou estabelecidos, enquanto no discipulado o discípulo se submete espontaneamente ao seu mestre, pelo reconhecimento nele da autoridade divina. E assim, no discipulado não há tensões, ou motivos para rebelião e insatisfação. Qualquer incompreensão que haja é explicada por quem tem autoridade e assim facilmente compreendida. Em caso de disciplina ela é aplicada com amor, podendo alcançar resultados positivos.
     O discipulado permite ainda o melhor conhecimento das necessidades dos santos, bem como uma mais equilibrada divisão do trabalho na comunidade. O resultado total é um maior proveito por parte de todos, bem como uma maior potência evangelística e missionária na Igreja. Isso porque serão muitos mais a trabalhar na mesma direção.
     Amém.  Vamos entender... e praticar.


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