sábado, 5 de março de 2016

Cuidado ao relembrar o passado

   SAUDOSISMO  É  PECADO?
                Pr.  Érico  Rodolpho  Bussinger
     O livro de Jó, na Bíblia, é riquíssimo em lições espirituais para nós.  Apesar de reportar uma história das mais antigas da Bíblia, da época dos patriarcas, em que não havia nada escrito, religião organizada nem a Lei tinha sido dada, nós aprendemos muito sobre Satanás, sua atuação e seus limites, sobre a natureza humana e principalmente sobre a natureza de Deus, o que não mudou.
     Jó era uma pessoa boa, que vivia uma vida agradável a Deus e era rico, o que na época era sinal de bênção. Infelizmente ainda hoje, mesmo após o cânon bíblico estar completado e Deus ter revelado a plenitude de Sua vontade para o ser humano, após Jesus ter vindo e após a revelação de Deus apontar para a Jerusalém celestial, onde deveremos ajuntar tesouros e não na terra,  existem pessoas que querem ver as riquezas materiais representarem bênçãos e aprovação de Deus.  Naquela época Satanás (que até hoje ainda tem acesso direto a Deus) se lançou a uma discussão com o Altíssimo a respeito do jó.  Segundo ele, Jó só era "temente a Deus, reto e que se desviava do mal", somente porque Deus o cercava com proteção  e lhe enchia a vida de riquezas (Jó 1:10).  Segundo Deus, essas qualidades em Jó eram marcas do seu caráter e não dependiam das "bênçãos" especiais. E aceitou o desafio (Jó 1:12,22).  De certa forma, essa questão permanece desafiadora para nós: Quantos crentes hoje seriam fiéis, caso Deus lhes retirasse as bênçãos materiais?
     O livro de Jó gasta uma grande parte do seu volume nos discursos das pessoas, inclusive de Deus.  No cap.29 encontramos Jó em seu devaneio desabafador relembrando o  passado.  O que ele fez e falou  bem pode ser qualificado como SAUDOSISMO, ou seja, lembrando o passado através de filtros modificadores.  Para ele o seu passado era maravilhoso. Não tinha coisas ruins.  Estas pertenciam ao seu presente.  Na sua lembrança do passado, ele tinha saúde, alegria, felicidade, respeito das outras pessoas, fartura e tudo de que se podia dizer que era bom aqui na terra.  Na sua mente, ele merecia aquela situação e por causa da sua "bondade" aquele estado de bem-estar perduraria por muito tempo.  Ele no passado praticamente ignorava a soberania de Deus e seus desígnios específicos.  Quantos hoje também estão pregando, dentro do seu fundamentalismo evangélico, as leis espirituais das boas conseqüências para aquele que crê? Estão igualmente ignorando que Deus pode escolher alguns para sofrerem, outros para não se casarem, alguns para serem mártires e ainda outros para serem pobres. Na Sua soberania Deus pode ter um chamado específico para cada crente, o que vai ser a sua melhor sorte.
     O SAUDOSISMO de Jó o fazia valorizar o passado (que não volta) e desprezar o presente, com suas lições e oportunidades.  Nesse aspecto, considero isto como pecado sim. Considerando que o nosso futuro está nas mãos de Deus e que depende de nossa atitude no presente (não adoto o fatalismo), o desprezo do presente por parte de um crente seria desprezar o que Deus lhe está oferecendo, como que a julgá-lO e prejudicar o seu futuro.  Há muitos princípios bíblicos envolvidos aqui.  Por ex., a fidelidade a Deus nas pequenas coisas como condição para ser aprovado para as grandes comissões.  A pessoa que despreza as oportunidades presentes, por exemplo como que a julgá-las "pequenas", no meu entender está desprezando o próprio Deus.  Por exemplo, quantos pentecostais eu conheço que estão se recordando de uma "profecia" específica a seu respeito de que "Deus tem uma grande obra para ele" e acaba não fazendo obra nenhuma, enquanto aguarda a "grande obra" prometida. Creio ser esta uma atitude vil, como a de Esaú, a desprezar o seu direito de primogenitura.
     O SAUDOSISMO carrega também consigo um "filtro" subjetivo e sujeito à influência maligna.  Ou seja, ao nos lembrarmos só das boas coisas, estamos sendo parciais. Na verdade, aqueles bons momentos não foram "tão bons assim". Também tinham consigo as doses amargas. Somente que não queremos nos lembrar delas.  Quantas pessoas se dão aos devaneios da mente, lembrando os bons momentos de um namoro passado?  Será que foram somente bons?
    No seu SAUDOSISMO Jó trazia consigo também uma grande dose de JUSTIÇA PRÓPRIA.  Era praticamente impossível ele não ligar o seu bem-estar passado à sua bondade.  Aliás, é o que ele mais faz no cap.29 e por isso mesmo podia projetar um futuro maravilhoso, como se dependesse somente da sua "bondade".  Na realidade, o futuro de Jó foi muito mais glorioso do que ele podia imaginar.  Mas por um desígnio específico de Deus e não pelo mérito de Jó.  Ele poderia ter terminado seus dias de forma semelhante à de Jeremias, que igualmente foi um fiel servo de Deus. E morreu martirizado e pobre.

     Eu recomendo, portanto, que você, cristão, para o seu próprio bem, vigie seus pensamentos quando vierem a relembrar o passado.  Analise-o com mais rigor (inclusive para confessar pecados esquecidos e receber curas psicológicas), tirando disso lições proveitosas para serem aplicadas no seu presente.  Nunca se esqueça que você não atingiu o alvo ainda (Fil.3:13,14) e que, portanto, cabe uma grande dose de humildade, desejando aperfeiçoar sua caminhada em direção ao alvo, que é  ser como Jesus.
  Amém!