quarta-feira, 8 de março de 2017

A LEI DE DEUS HORRORIZANDO

APEDREJAMENTO DA MULHER ADÚLTERA
                                   PR.  Érico Rodolpho Bussinger
     No Evangelho de João cap.8 encontramos o caso da mulher adúltera, apanhada em flagrante. Os judeus, para terem de que acusar Jesus, lembraram-lhe a Lei de Moisés, onde ordenava que a mulher apanhada em flagrante adultério fosse apedrejada (Lv.20:10).  E queriam saber a opinião de Jesus a respeito.  A pergunta foi maliciosa, pois o apedrejamento de adúlteros não mais existia, por várias razões. Mas estava escrito na Lei.  Caso Jesus defendesse a letra da Lei, estaria contra os romanos.  Caso fosse contra a Lei, eles o acusariam por isso junto ao povo. A resposta de Jesus foi sábia, respaldou a Lei e devolveu a eles a questão quanto à aplicabilidade da Lei.  E essa é outra questão fundamental. Quem deve aplicar a pena capital?
     Há muitos complicadores no assunto.  O texto referente à mulher adúltera se encontra entre colchetes, o que significa que muitos estudiosos duvidam (nós não) que ele realmente conste do texto original.  A prática de apedrejamento não era utilizada pelos romanos e os judeus não tinham autonomia para aplicá-la.  Além do mais, não há na Bíblia, ao que me lembre, qualquer referência a alguma situação em que uma mulher adúltera de fato tenha sido apedrejada.  O texto bíblico da Lei condenava tanto o homem como a mulher ao apedrejamento (Lv.20:10).  Com o passar do tempo, os israelitas passaram a tolerar os pecados do homem a esse respeito, mas tratavam com rigor diferenciado a mulher que fazia o mesmo.  Dois pesos e duas medidas, aproximadamente o que ocorre hoje ainda no islamismo.  E de forma igualmente apelativa à memória, não me lembro de qualquer texto em que o próprio Deus tenha cobrado dos israelitas que praticassem esse apedrejamento.  Deus cobrou que o apedrejamento fosse feito, mas por outras razões, como a blasfêmia ou idolatria (Lv.20:2,  24:14,23).  Mas não cobrou o apedrejamento quanto ao adultério.  E nem só da mulher.  Nem mesmo de Davi com a Batseba.
     Quando Deus levantou os profetas, para denunciar o pecado do Seu povo Israel, também não me lembro de qualquer passagem em que o Senhor cobrasse a prática do apedrejamento dos adúlteros.  Com Esdras e Neemias foi cobrada a separação no caso dos casamentos mistos (com mulheres estrangeiras). Mas Deus não cobrou o apedrejamento dos adúlteros.  Deus falou muitas vezes, através dos profetas, sobre o adultério.  Mas não cobrou a prática do apedrejamento.
     O que podemos dizer sobre o assunto?  Estaria Deus então tolerando o adultério? Claro que não.
     Todo o Antigo Testamento contém situações semelhantes, que podem nos deixar dúvidas.  Aliás, uma grande parte do Antigo Testamento se refere à História do Povo de Israel, como o Gênesis, as crônicas ou mesmo registros históricos, mas sem uma análise de mérito ou mesmo julgamento.  Nesses casos isso ficou para o leitor analisar.  Como exemplo disso, a doença nos pés do rei Asa (1Re.15:23,24 e 2Cr.16:12).  Em um texto essa doença é apenas reportada. No outro texto ela é mencionada como a causa da sua morte e teria vindo da parte de Deus como um teste para a sua fé.  Em geral grande parte do Antigo Testamento carece de interpretação.  Até mesmo profecias claras e objetivas da parte de Deus, denunciando o pecado, também não diziam explicitamente o que o povo deveria fazer para se consertar dele.  Ficava por conta dos fiéis.
     No caso do apedrejamento de adúlteros a pena deveria ser aplicada no caso de terem sido apanhados em flagrante. E as testemunhas seriam as primeiras. Sem testemunhas não se aplicaria a pena, embora o homem pudesse ter ciúmes da mulher.  E aí seria outra situação (Nm.5:13,14). Neste caso, sem flagrante, mesmo tendo adulterado, ela não morreria.  Entendemos que, pelo fato de ser necessário o flagrante,  a sociedade toda deveria estar representada no apedrejamento. Até crianças testemunhariam essa morte violenta. Seria para chocar mesmo ! Quando o adultério fosse constatado em flagrante, a sociedade toda deveria sofrer (o que ocorria no apedrejamento). Caso a sociedade se omitisse (o que sempre aconteceu), estaria sendo conivente com o pecado. E a punição de Deus seria para todo o povo e não somente para os adúlteros. É bom lembrar que adúlteros sempre existiram e o próprio Deus testifica isso através de seus profetas (Os.7:4).   Esse é mais um exemplo de lei pedida pelos israelitas (Dt.5:27).  Mas que Deus sabia que não seria aplicada, como de fato nunca foi.  Eu acredito até que, devido às duras conseqüências e envolvimento, o povo preferiu “fingir” que não via adultérios. Mas era uma lei (juízo) necessária, para respaldar os “Dez Mandamentos” (Ex.20:14): “Não adulterarás.” Mas e se adulterar? Tem que haver morte por apedrejamento.   
     Afinal, toda essa lei foi pedida pelo povo de Israel (Ex.19:8 e 20:19). E deveria ser cumprida por ele. Mas não foi.  Por isso também se tornou necessária a graça, que veio por Jesus. Ela completaria a Lei, que veio por Moisés (Jo.1:17).  E a Lei deve horrorizar mesmo, para que se busque a graça.
     O apedrejamento de adúlteros é um exemplo de como não se consegue ser justificado pela aplicação da Lei.