Triunfalismo
O termo "triunfalismo" tem se tornado cada vez mais comum no meio evangélico brasileiro, especialmente quando se discute os rumos da igreja contemporânea. Mas, afinal, o que significa este conceito? O triunfalismo, em sua essência, é a crença de que a vida cristã deve ser marcada exclusivamente por vitórias, prosperidade material, saúde perfeita e sucesso em todas as áreas. Qualquer sinal de fraqueza, doença, sofrimento ou fracasso é visto como falta de fé, pecado oculto ou falta de alinhamento com as "leis espirituais" que muitos pregadores modernos insistem em impor.
Esta visão, que se popularizou fortemente através da Teologia da Prosperidade e do movimento da Confissão Positiva, tem causado sérios danos à fé de muitos crentes sinceros. A Bíblia, no entanto, apresenta um quadro muito mais completo e realista da vida com Deus. O próprio Jesus Cristo, o autor e consumador da nossa fé, foi descrito pelo profeta Isaías como "homem de dores e experimentado no sofrimento" (Isaías 53:3). Ele não nos prometeu uma vida sem problemas; pelo contrário, nos advertiu: "No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (João 16:33).
O apóstolo Paulo é um testemunho vivo de que a graça de Deus se manifesta de forma poderosa em meio às fraquezas. Ele nos fala sobre um "espinho na carne" e aprendeu a se gloriar nas suas fraquezas, pois "quando sou fraco, então sou forte" (2 Coríntios 12:9-10). A vitória de Cristo não foi uma vida terrena isenta de opressão e perseguição, mas a vitória definitiva sobre o pecado, a morte e o inferno, conquistada através do sacrifício da cruz. A verdadeira fé cristã não é a ausência de lutas, mas a certeza inabalável de que Deus está conosco em meio a elas.
O perigo do triunfalismo é múltiplo. Primeiro, ele cria uma fé ilusória e frágil, que não está preparada para as inevitáveis tempestades da vida. Quando a crise chega — e ela chega para todos, justos e injustos — o crente que foi alimentado apenas por mensagens de "vitória" pode facilmente naufragar na fé, achando que Deus o abandonou ou que ele próprio não é verdadeiramente salvo. Segundo, o triunfalismo gera um julgamento duro e cruel contra os irmãos que estão passando por dificuldades. O doente, o desempregado, o enlutado ou o que sofre perseguição são tratados como "crentes de segunda classe", que precisam "se libertar" ou "confessar a vitória". Este é um pesado jugo que Deus jamais colocou sobre as costas de seus filhos (Mateus 11:28-30).
Precisamos urgentemente resgatar a teologia da cruz em nossos púlpitos e em nossas vidas. Não me refiro a uma cruz ornamental, mas à cruz do discipulado genuíno, do negar-se a si mesmo, do carregar o seu fardo diário e seguir a Cristo (Marcos 8:34). A união com Cristo inclui necessariamente a participação em seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória (Romanos 8:17). Os heróis da fé mencionados em Hebreus 11 não foram todos poupados do sofrimento; muitos foram torturados, escarnecidos e mortos, mas todos foram aprovados por Deus por sua fé inabalável.
Que o Senhor nos livre de um evangelho triunfalista e barato, que tanto agrada à carne e ao mundo, mas não nos transforma à imagem de Cristo. Que possamos abraçar a verdadeira vida abundante que Jesus nos oferece — uma vida que não está livre de lutas, mas que transborda da paz de Deus que excede todo o entendimento. Uma vida que glorifica a Deus não apenas nos dias de bonança, mas também nos vales escuros, confiando que Ele é o nosso Pastor e nada nos faltará.
